Quando começou a usar a pista do Blackheath and Bromley, clube de atletismo do sul de Londres, Adam Gemilli, lançava uma cartada para tentar chamar mais atenção de clubes de futebol, já que a melhor oferta que tinha era de equipes da Quarta Divisão inglesa. No entanto, bastaram alguns piques para que sua vida desse uma senhora guinada: aos 18 anos, em vez dos gramados de arenas acanhadas, ele agora está prestes a disparar pelo piso emborrachado do Estádio Olímpico, dividindo os holofotes com ninguém menos que Usain Bolt. Gemili é um dos velocistas da equipe britânica de atletismo nos Jogos de Londres 2012 e uma senhora promessa de medalha para a Rio 2016.
Nascido em Dagenham, subúrbio londrino mais conhecido por sua participação no boom da indústria automobilística britânica, o menino era um desconhecido até julho do ano passado, quando ganhou duas medalhas de prata (100m e revezamento 4x100m), no Campeonato Europeu Juvenil. Na época, ele ainda se altenava entre o futebol e o atletismo, para o desespero dos treinadores do Blackeath and Bromley, que temiam vê-lo lesionado por carrinhos e caneladas. Em janeiro, porém, Gemili pendurou as chuteiras, e qualquer arrependendimento ficou para trás junto com os adversários no início de junho.
No Meeting de Regenburg, Alemanha, um evento de segundo escalão do calendário profissional, o inglês correu os 100m rasos em 10s08, um tempo incapaz de assustar as principais vedetes da prova, mas que valeu o índice olímpico para Gemili. Imediatamente começou o debate sobre que decisão o velocista deveria tomar, até porque seu treinador, Michael Afilaka, revelou preocupação com os efeitos que o estrelato repentino poderia causar no atleta, sugerindo até que Gemili não participasse dos Jogos Olímpicos.
O próprio Usain Bolt, ele mesmo um prodígio juvenil, deu sua opinião no debate: ''É preciso que esse menino lembre que a transição de juvenil para adulto é complicada sob vários aspectos'', explicou o jamaicano, citando os cinco anos que ficou sem ganhar nenhum título de expressão. Mas quando Gemili fechou em segundo lugar nas seletivas britânicas para os 100m, em 23 de junho, garantindo uma das das três vagas olímpicas, parecia claro que o velocista tinha ambições. ''Todo mundo gostaria de participar das Olimpíadas, especialmente quando elas terão lugar em nossa cidade. Tenho o tempo e a vaga, mas ainda preciso falar com meu treinador'', despistou.
Qualquer dúvida desapareceu na semana de 14 de julho: com 10s05, Gemili não apenas arrebatou o título dos 100m no Mundial Juvenil, em Barcelona. Ele correu o tempo mais rápido da história da competição e o segundo melhor adulto europeu na temporada de 2012, atrás apenas do francês Cristoph Lemaitre (10s04). ''Tudo o que aconteceu até agora é inacreditável e eu ainda estou um pouco chocado. Ainda dou risada quando penso que estarei disputando os 100m nas Olimpíadas'', admite o velocista inglês.
Gemili agora precisa domar nervos e expectativas. Para começar, o atletismo está cheio de casos de campeões mundiais juvenis que se tornaram adultos medíocres. E a pressão de competir diante dos olhos do mundo já mostrou que até Bolt, embora campeão olímpico e dono do recorde mundial nos 100m e 200m, pode piscar — sua desclassificação no Mundial de 2011, por queimar a largada, é a prova irrefutável.
Porém, o ex-jogador e atual esperança do futuro do atletismo britânico, parece até agora mais agradecido do que ansioso. ''Não imagino que vá ter a chance de disputar uma outra Olimpíada em meu país novamente. Então quero apenas me divertir e tentar melhorar meu tempo. Vai ser surreal ver tanta gente no estádio. Estou muito mais acostumado a correr na frente de 500 e poucas pessoas'', brinca Gemili.


