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A heróica vitória diante do Bayern de Munique na final da Liga dos Campeões da UEFA não foi apenas especial para o Chelsea, que enfim conquistou o título mais cobiçado do futebol de clubes. A equipe do sul de Londres tornou-se ainda a primeira da capital e do sul britânico a levantar o troféu, pondo fim a uma tendência histórica de domínio dos times do norte (Manchester United e Liverpool, por exemplo, têm um total de oito títulos). Uma hegemonia que tem raízes na própria dinâmica da sociedade britânica. Foi no norte da Inglaterra, o berço da Revolução Industrial, que surgiram os primeiros clubes de futebol, no século 19, impulsionados pela demanda por lazer da imensa massa trabalhadora da região.
Não por acaso, quando a Liga Inglesa foi formada,em 1888, os 12 membros originais eram equipes da parte de cima do mapa. Tampouco foi surpresa seu desenvolvimento ter sido mais rápido. As cidades industriais do norte cresceram e atraíram migrantes de todas as partes do país, para quem o futebol proporcionava um senso de comunidade, e os clubes ganharam muito mais importância que na capital ou nas cidades do sul, em que hierarquias sociais eram mais rígidas. Se hoje acena com o maior número de clubes na Primeira Divisão da Liga Inglesa (seis), Londres não é a capital do futebol inglês, ao ponto de só, nos anos 30, com o Arsenal, um clube do sul finalmente ter sido campeão nacional pela primeira vez.
A partir dos anos 90, porém, foi inevitável que o salto dado por Londres como cidade não fosse acompanhado por seus clubes: economicamente mais forte do que nunca graças a sua afirmação como centro financeiro, a cidade se internacionalizou e ganhou mais atratividade. Clubes de futebol aproveitaram o momento para se fortalecer, sobretudo por ter um público que certamente poderia pagar preços mais altos por ingressos. Investidores também perceberam o filão: o egípcio Mohhamed al-Fayed escolheu o pequeno Fulham quando quis estender seus negócios para o futebol. E um bilionário russo jamais olharia para o norte na hora de abrir a carteira.
Com a montanha de dinheiro despejada por Roman Abramovich sobre Chelsea em sua chegada ao clube londrino, em 2003, parecia uma questão de tempo para que o time quebrasse o encanto londrino. No entanto, mesmo a contração de estrelas do futebol, com ofertas salariais exorbitantes, não resultou no título, ainda que sob a gestão do novo dono o clube londrino tenha sempre disputado a rentável Liga do Campeões. Na temporada 2004-5, quando o Chelsea conquistou a Liga Inglesa pela primeira vez em 50 anos, o vice-campeonato do Arsenal foi quase tão impressionante, já que nunca dois times de Londres tinham feito a dobradinha nacional.
Que o fim do jejum europeu tenha vindo justamente num ano em que seus principais jogadores já não apresentavam o mesmo potencial pegou até Abramovich desprevenido. Tanto que, depois de uma derrota por 3 a 1 para o Nápoli no torneio europeu, em março, ele sequer se preocupou em contratar um treinador de renome para substituir o português André Villas-Boas - escolheupromover interinamente seu auxiliar, o italiano Roberto Di Matteo.
E o futuro é promissor para Londres, de acordo com analistas. ''Os chamados clubes provinciais, como Liverpool e Manchester United, construíram marcas fortes o suficiente para se manterem entre a elite. Mas estar numa capital vem se transformando numa vantagem para um clube de futebol'', explica Stefan Szymanski, economista britânico e co-autor de ''Soccernomics'', livro sobre as curiosidades estruturais do esporte.
